Minicurso

“HISTÓRIA ECONÔMICA DO JAPÃO MODERNO – DA RESTAURAÇÃO MEIJI AO ACORDO DE PLAZA (1868-1985)”

Coordenador: Prof. Dr. Rafael Moura (FCE-UERJ)

Organização: Nucleas & Grupo de Investigación Estado, Instituciones y Desarrollo (GIEID-ALACIP)

PÚBLICO-ALVO

Este curso, embora munido de aportes úteis para estudantes e pesquisadores nas áreas de História, Ciências Econômicas, Relações Internacionais, Ciência Política e Sociologia interessados na trajetória de desenvolvimento do Japão, busca romper com a linguagem estritamente acadêmica e ofertar também conhecimentos acessíveis a leigos e curiosos acerca do país asiático. Desta forma, o curso objetiva atingir também um público externo à universidade através de uma reconstrução dos principais fatos estilizados da rica história econômica nipônica, com forte caráter descritivo, empírico e não normativo. 


OBJETIVO

No ano de 2025, Brasil e Japão celebraram 130 anos de relações comerciais e diplomáticas, traduzindo um vínculo histórico profundo datando desde o longínquo ano de 1895 com o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação. Tais laços evoluíram ao longo dos Séculos XX e XXI e permaneceram firmes até os tempos atuais: o Japão é o sexto (6º) maior parceiro comercial do Brasil, sendo responsável por 2,58% de nossas exportações; e possui conosco um leque amplo de acordos de cooperação nas mais diversas áreas. O país asiático, em si, segue tendo uma posição de destaque: configura a quarta (4ª) maior economia mundial (World Bank, 2025), e possui um regime produtivo altamente sofisticado, com firmas manufatureiras exitosamente inseridas nas cadeias globais de valor. Segundo o ranking do Atlas da Complexidade Econômica (2025), o Japão ocupa no momento a posição de terceira (3ª) economia mais complexa do mundo, refletindo um parque tecnológico extremamente avançado. Destarte, a compreensão dos fatores e elementos que levaram o Japão a alcançar tal patamar de desenvolvimento se mostra fundamental.

Assim, o objetivo deste minicurso é, mediante um conjunto de seis (6) aulas, com duração de 2 horas e 30 minutos cada, apresentar ao participante e ouvinte uma imersão de fôlego na trajetória de desenvolvimento japonesa, por mais de um século de história econômica. 

Este minicurso compreende um total de seis (6) aulas, a primeira delas sendo uma apresentação geral sobre as transformações estruturais vivenciadas pelo país asiático ao longo do recorte de mais de um século, da Restauração Meiji em 1868 até o Acordo de Plaza em 1985; e cinco encontros cobrindo distintos blocos históricos da trajetória nipônica. Abaixo, segue a descrição dos eixos temáticos de cada aula e uma breve sinopse do que será discutido em cada uma:

AULA 1 – Introdução / Contextualização [Segunda-feira: 23/02/2026 18h-21h]

O primeiro encontro do curso terá um viés introdutório. O professor irá fazer uma síntese do conteúdo geral a ser lecionado, e trará fatos estilizados e dados empíricos para passar ao público uma dimensão geral do período histórico coberto, mapeando os contornos da transformação do Japão, de um país agrário, feudal e tradicional para uma potência industrial e tecnológica moderna.

PARTICIPAÇÃO (CONVIDADO): Cônsul-Geral do Japão no Rio de Janeiro, Exmo. Sr. Takashi Manabe.

TÍTULO DA PALESTRA DO CÔNSUL-GERAL MANABE: “Reflexões sobre a Economia Japonesa: pré-Era Meiji e pós-Acordo de Plaza

AULA 2 – A Era Meiji (1868-1912): Modernização e industrialização em meio a uma delicada geopolítica [Quarta-feira: 25/02/2026 18h-21h]

A aula traz, como ponto inaugural para a trajetória japonesa de desenvolvimento econômico, o mapeamento do legado da Restauração Meiji (1868). É com a passagem da Era Tokugawa (1603-1868) à Era Meiji (1868-1912) que o país enfim transita de uma estrutura feudal, tradicional e agrária, com uma posição de isolacionismo relativo, para a de potência manufatureira no decorrer de poucas décadas, constituindo uma das mais exitosas experiências de industrialização tardia do Século XIX, ao lado dos Estados Unidos da América (EUA) e Prússia.

A aula fará uma síntese das principais transformações vivenciadas pelo Japão em tal recorte temporal, destacando o processo de centralização política do novo Estado Meiji, suas instituições e o papel das elites “Genro”; bem como como a abolição dos domínios dos daimyōs, a conversão dos samurais em cidadãos civis, a criação de um sistema fiscal e bancário moderno, e o papel pioneiro dos conglomerados empresariais familiares Zaibatsus na industrialização nipônica.

Também abordarei o emparelhamento tecnológico e militar como partes inseparáveis do projeto nacional do Japão; que buscou diminuir o hiato com relação às potências ocidentais não apenas nas manufaturas em sentido comercial, mas também em força bélica, o que prescindiu de um processo de aprendizado acelerado e adaptação institucional. Esta aula, em síntese, irá mapear os contornos gerais do primeiro emparelhamento ou catching-up japonês, consolidado nas décadas anteriores à Primeira Guerra Mundial.

AULA 3 – Das Perspectivas Liberalizantes da Era Taisho ao início da Era Showa: Militarização e o advento da racionalização industrial [Sexta-feira: 27/02/2026 18h-21h]

Este terceiro encontro, por vez, compreende o interregno a partir da Era Taisho (1912-1926), que sucedeu a Meiji, até as duas primeiras décadas da Era Showa (1926-1945); e como perspectivas e tendências liberalizantes que aparentavam nortear parcela da sociedade deram rapidamente lugar à militarização e recrudescimento da violência e autoritarismo na política doméstica. Isto em concomitância, no plano externo, ao aumento das tensões no sistema internacional.

Em suma, serão vistos, ao longo da aula, elementos importantes que marcaram a Era Taishō (1912-1926), como uma tendência (posteriormente interrompida) de crescente liberalização política em meio a mudanças no perfil demográfico e estrutural da sociedade e da economia; com crescente urbanização, pressão social por representação e consolidação embrionária de um sistema partidário.

No plano econômico, apesar das turbulências que marcariam o início da Era Showa a partir de 1926, se dá uma transição estrutural importantíssima da industrialização leve para a pesada: neste âmbito, surgem as tendências de planificação e racionalização industrial a partir de 1925, fomentando largamente os Zaibatsus por meio da coordenação produtiva e uma atuação estatal que, mesmo autoritária, fortalecerá o parque industrial nipônico e irá acelerar a capacidade tecnológica para fins sobretudo (embora não apenas) bélicos. Esses mecanismos de política industrial, não obstante a derrota no conflito, deixarão um legado institucional que será altamente decisivo para a retomada do crescimento e toda uma tradição interventora que irão marcar o desenvolvimento econômico do Pós-Guerra…

AULA 4 – O imediato Pós-Guerra (1945-1954): Desestruturação econômica, um novo cenário externo e as consequências da ocupação [Segunda-feira: 02/03/2026 18h-21h]

Essa aula centra no período do imediato pós-guerra (1945-1954), analisando desde o saldo da derrota na Grande Guerra do Pacífico, passando pelo período de ocupação pelos estadunidenses, até o lançamento das bases políticas e institucionais para reerguimento e reconstrução do Japão. Após a derrocada de 1945, a economia nipônica encontrava-se devastada: produção reduzida pela metade, capital destruído e grave escassez de insumos. O período histórico do pós-guerra, entretanto, abriria uma nova janela de oportunidades. É no Pós-Guerra que o Japão irá testemunhar o seu segundo emparelhamento / catching-up; com retomada do crescimento econômico, reconstrução acelerada de sua infraestrutura, e adensamento e expansão de setores industriais sofisticados em meio à urbanização intensa. Embora a ocupação norte-americana inicialmente tivesse tentado desmantelar a base industrial, inclusive dissolvendo parte dos ativos dos antigos Zaibatsus e a morfologia original de tais conglomerados, o redesenho institucional, a reorganização produtiva e a ascensão de uma burocracia econômica altamente capaz e tecnocrática permitiram colocar o país novamente em uma trajetória virtuosa de desenvolvimento.

Trataremos dos contornos da ocupação norte-americana através do órgão SCAP (Supreme Commander for the Allied Powers), e também o papel que a geopolítica da Guerra Fria, sobretudo a Guerra da Coreia (1950-1953) que repartiria a península, exerceriam sobre as circunstâncias colocadas à economia do Japão neste período.

AULA 5 – Apogeu do “Sistema 55” (1955-1975): A construção da hegemonia do Partido Liberal Democrático (PLD) e os anos dourados do crescimento japonês [Quarta-feira: 04/03/2026 18h-21h]

Essa aula, focada entre meados dos anos 1950 e meados da década de 1970, detalha o momento de maior progresso econômico registrado na história do Japão do Pós-Guerra. Este período foca no ápice do chamado “Sistema 55”, correspondente à hegemonia do Partido Liberal Democrático (PLD) a partir de 1955, constituindo a maior legenda nipônica e que geriu o país ao longo de todo esse estrondoso progresso. A aula busca detalhar ainda, no âmbito desses “Anos Dourados”, o papel de atores políticos e sociais relevantes como os burocratas governamentais, os políticos do PLD e os representantes dos novos conglomerados industriais Keiretsus.

O “Sistema 55” inaugura um período de hegemonia quase ininterrupta do PLD, sustentado por uma engrenagem política complexa articulando burocracia, empresariado e elites políticas. Essa aliança triangular será tratada na aula através de uma descrição dos fenômenos políticos do Amakudari e Seikai Tensin, que garantiam circulação de quadros e alinhamento estratégico entre governo e setor privado em torno de um projeto de desenvolvimento comum. Sob essa arquitetura, o Ministério do Comércio Internacional e da Indústria (Ministry of International Trade and Industry, ou MITI) irá desempenhar um papel coordenador central, promovendo política industrial seletiva, proteção tarifária estratégica, apoio à inovação tecnológica e, junto com outras instituições, canalização estratégica do crédito. Essa engenharia ajudará, em muito, a fomentar os grandes conglomerados industriais japoneses e irá nutrir setores integrados à Terceira (3ª) Revolução Industrial. Essa complexa engenharia institucional permitirá com que, nas décadas de 1950, 1960 e 1970, o Japão tenha um crescimento excepcional com pleno emprego, transformação estrutural e conversão em potência mundial.

AULA 6 (FINAL) – Amadurecimento e Crepúsculo do “Modelo Japonês”: Do ápice do desenvolvimento econômico ao Acordo de Plaza [Sexta-feira: 06/03/2026 18h-21h]

O sexto e último encontro examina o período que vai de 1973 até 1985, quando o milagre japonês alcança maturidade e começa a se defrontar com desafios substantivos. O encontro irá delinear como os governos japoneses responderam aos desafios trazidos pelos choques do petróleo de 1973 e 1979, a volatilidade cambial derivada do fim do Regime de Bretton Woods (1944-1971), e a crescente pressão estadunidense pela liberalização da economia nipônica. É neste recorte temporal no qual se dá, sobretudo sob o Primeiro-Ministro Yasuhiro Nakasone (1982-1987), a transição de uma política industrial fortemente intervencionista para uma orientação mais liberalizada e financeirizada, em consonância com a consolidação de grandes corporações japonesas em meio à globalização e a redução do papel discricionário do MITI.

A aula será finalizada com uma discussão sobre o Acordo de Plaza (1985), considerado uma divisor de águas na trajetória japonesa de desenvolvimento. Será discutido particularmente como o realinhamento cambial proposto pelo Acordo levou ao fim da En’Yasu (era do “iene barato”) e início da En’Daka ou “era do Iene apreciado”; inaugurando um novo capítulo histórico da trajetória do país. Assim, terminava a “era de ouro” do crescimento nipônico; embora em um momento em que o emparelhamento / catching-up acelerado, iniciado um século antes, já havia se consumado; com o Japão já dotado de uma economia robusta, plenamente industrializada e com uma inserção externa exitosa na maioria das cadeias industriais globais.

Total de Horas: 15 horas.

Horário: 18h-21h.

Vagas: 50.

Local: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), 8º andar, Sala RAV-84

Inscrições: Enviar nome completo, gênero (se desejar), idade e profissão para o e-mail rafaelmoura5028@gmail.com.

Em decorrência da limitação de espaço no Auditório RAV-84, o professor se verá no direito de vetar inscrições, caso as 50 vagas do curso sejam preenchidas.

Certificados:

Serão entregues certificados para os inscritos que comparecerem em, ao menos, quatro (4) das seis (6) aulas ministradas no Curso, conforme registro de presença feito no âmbito das exposições.

Bibliografia:

MOURA, Rafael. Industrialização, Desenvolvimento e Emparelhamento Tecnológico no Leste Asiático: Os casos de Japão, Taiwan, Coreia do Sul e China. Rio de Janeiro: Ideia D, 2021.

Disponível gratuitamente para download em: https://share.google/chpZ6Umb93DgJxqO6

Docente responsável: http://lattes.cnpq.br/9313386712560846

Ementa do curso em formato PDF: